
Foto: Alex Régis
A cena se repete a cada quatro anos: mãos ansiosas para rasgar os pacotes e a expectativa de encontrar a figurinha que falta. Mesmo antes do lançamento do álbum da Copa do Mundo de 2026, colecionadores de Natal já aguardam com entusiasmo a edição, que será lançada em 1º de maio. Para muitos, é nesse momento que começa, de fato, o clima de Copa — antes mesmo da bola rolar.
A coleção oficial do álbum da Copa do Mundo de 2026, que já está em pré-venda, será uma das maiores da história. Ao todo, serão 980 figurinhas — sendo 912 em papel couché e 68 especiais em material metalizado — número recorde impulsionado pela ampliação do torneio para 48 seleções. Todas as equipes classificadas estarão representadas nas páginas do álbum.
Dono de uma das bancas mais conhecidas de Natal, Joanilson Júnior da Silva, o “Jr Figurinhas”, tem recebido, há semanas, a mesma mensagem de diferentes clientes. “A pergunta que mais chega ultimamente é: ‘Jr, o álbum chega quando?’”, conta o proprietário enquanto aponta para o celular.
A banca localizada no bairro Candelária vende figurinhas há 20 anos. Apesar de comercializar álbuns e cromos de diferentes temáticas ao longo do ano, é a Copa do Mundo que concentra a maior procura. Durante o período do torneio, a demanda cresce significativamente, impulsionada pelo interesse de colecionadores de todas as idades.
O interesse pelas figurinhas muitas vezes começa dentro de casa, passado de geração em geração. “Eu tenho colecionadores que frequentam a banca de Copa em Copa, porque isso já vem dos pais, dos avós que tinham esse hábito de colecionar com relação à Copa do Mundo”, revela Júnior.
Ele conta que já presenciou casos de álbuns de Copas antigas avaliados em mais de R$ 20 mil — e, ainda assim, os donos não abrem mão das coleções, justamente pelo valor afetivo e pela tradição familiar que carregam.
Como colecionador, ele sabe que juntar não é apenas mera diversão, mas guardar momentos. “O colecionismo é algo ímpar. Eu não entendo de onde vem. Eu, por exemplo, comecei a colecionar, tinha nove anos de idade. Meu primeiro álbum de figurinhas foi com nove anos. Hoje, já incentivei meus filhos a colecionar também”, recorda.
Colecionador apaixonado, o proprietário da banca tem álbuns de diversas Copas do Mundo, além de edições especiais da seleção brasileira e de períodos pré-Copa. Parte dessas coleções sequer teve as figurinhas coladas, preservadas com cuidado ao longo dos anos. O envolvimento é tanto que Júnior conhece de memória as figurinhas da seleção brasileira, identificando jogadores apenas pelo número da cartela em diferentes edições.
Segundo ele, não existe idade para entrar nesse universo: “eu tenho crianças com quatro anos de idade que começam a colecionar e eu tenho senhores hoje com 80 anos de idade que colecionam álbuns de figurinhas”.
O advogado Antônio de Pádua coleciona figurinhas desde os oito anos de idade e já perdeu a conta de quantos álbuns guarda. A coleção é diversa — inclui filmes, desenhos animados, campeonatos ao redor do mundo e diferentes modalidades esportivas —, mas são as Copas do Mundo que ocupam um lugar especial. “Na Copa do Mundo tudo se transforma, tudo fica mais alegre, mais colorido, devido a que todo mundo quer que sua seleção seja vitoriosa. E você ter um álbum da Copa do Mundo com o seu país que foi vitorioso é lindo demais”, disse.
Apesar de reunir álbuns de diferentes edições, ele afirma que o interesse nunca diminui e já aguarda com ansiedade a Copa de 2026.
Para o colecionador, cada álbum carrega uma história própria, pois desperta lembranças pessoais do ano vivido. “Cada Copa traz memórias. Você vem trazendo emoções únicas, porque em cada Copa você está com um grupo diferente, você está ou com a família, ou está com amigos”, destaca Antônio.
Álbum será mais difícil de completar
Antônio de Pádua avalia que a edição de 2026 traz uma empolgação extra justamente pelo desafio que representa para os colecionadores. As 980 figurinhas representam um número significativamente superior ao da edição anterior, da Copa do Mundo do Catar, em 2022, que teve 670 cromos.
O aumento no número de figurinhas está diretamente relacionado à ampliação de seleções participantes no torneio. Enquanto em 2022 eram 32 países que disputaram a competição, este ano contará com 48 seleções.
De acordo com ele, essa ampliação torna a experiência ainda mais envolvente e desafiadora para quem busca completar a coleção. “As expectativas são as melhores possíveis. Vai ser a maior Copa e a mais grandiosa, pela quantidade de países participando da Copa do Mundo, que teve um crescimento bastante considerável”, avalia Antônio de Pádua.
O novo álbum também chega com mudanças nos preços. Cada pacote custará R$ 7 e trará sete figurinhas. Para efeito de comparação, na Copa do Mundo de 2022, no Catar, os pacotes eram vendidos por R$ 4 e continham cinco cromos, o que reforça o aumento no investimento necessário para completar a coleção.
O empresário Bruno Lorenski, que também coleciona álbuns da Copa, destaca que o desafio será ainda maior nesta edição e já prepara as estratégias. “Vai ser um álbum bem mais difícil de completar. No dia do lançamento eu vou abrir 4 mil pacotes”, afirma sobre a preparação.
Trocas
Estimativas baseadas na probabilidade de repetição indicam que completar o álbum da Copa de 2026 pode custar até R$ 7 mil, sem considerar as trocas de figurinhas. Com as trocas, esse valor pode cair para cerca de R$ 1.500.
A troca de figurinhas é um dos momentos mais especiais para os colecionadores — e também faz parte das memórias de Joanilson Júnior.
A trajetória como colecionador de álbuns da Copa começou em 2006. Ao abrir o primeiro pacote de figurinhas, tirou justamente o escudo do Brasil — uma peça chamativa, toda prateada. Ainda assim, acabou cedendo a figurinha para um cliente que também queria completar a coleção.
Depois, quando decidiu fechar o próprio álbum, não conseguiu de imediato. Faltava a figurinha do escudo do Brasil. Foi então que passou a trocar figurinhas com todo mundo, em busca do escudo novamente. “Fiquei na ansiedade, pedindo a todo mundo”, lembra.
No fim, recebeu cinco figurinhas repetidas do escudo e fez questão de agradecer a cada cliente que lhe deu. “A gente coleciona figurinha, mas a gente faz amizade também”, disse Júnior.
Para ele, o colecionismo vai além do álbum: cria laços. Hoje, esse espírito se mantém nas trocas que organiza todos os fins de semana, reunindo pais e filhos, avós e netos, tios e sobrinhos em um espaço dedicado à troca de figurinhas.
Coleções trazem lembranças de infância
Na banca de Júnior, as figurinhas também viraram ferramenta de incentivo para as crianças. Alguns pais adotam um método simples: boas notas, leitura em dia ou bom comportamento rendem como recompensa um pacote de figurinhas. Segundo os frequentadores, a estratégia tem se mostrado eficaz por estimular hábitos positivos e ajudar a reduzir o tempo de exposição às telas.
Bruno Lorenski guarda na memória os primeiros contatos com o universo das figurinhas. Ele lembra com clareza de quando tinha seis anos e o pai chegava em casa com pacotes da Copa do Mundo, ajudando-o a colar cada uma no álbum. Aos 18 anos, passou a comprar os próprios pacotes e a montar suas coleções de forma independente, mantendo viva a tradição iniciada na infância.
Dono de uma banca, Joanilson Júnior da Silva relata que colecionadores estão ansiosos | Foto: Alex Régis
Dono de uma banca, Joanilson Júnior da Silva relata que colecionadores estão ansiosos | Foto: Alex RégisHoje, Bruno reúne álbuns desde 1994 e ampliou o interesse ao longo dos anos. A partir de 2010, passou a colecionar também edições de outros países. “Tenho o álbum da Suíça, o americano e o brasileiro. Em 2014, já tenho de mais países ainda”, conta. Ao todo, são oito Copas diferentes acompanhadas de perto, mas mais de 20 álbuns distintos reunidos na coleção.
Apesar do valor afetivo e das lembranças despertadas, ele destaca que o principal atrativo está na convivência proporcionada pelo hobby. “A parte mais legal é socializar, conhecer gente nova. Você troca figurinha tanto com uma criança de quatro anos quanto com um senhor de 90. A sensação é de que todo mundo é igual, independentemente da idade ou da classe social”, afirma.
Para ele, o colecionismo também é uma tradição que atravessa gerações. “Às vezes você chega na banca e estão o avô, o pai e o neto juntos. O netinho vem mostrar a figurinha que conseguiu, e todo mundo passa a procurar as mesmas peças. É bem legal ver isso acontecendo”, relata.
Fonte Tribuna do Norte
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